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Miguel Patrício -

A BOLA DA VEZ

Certa vez a morte, em sua incansável tarefa de perseguir a vida, havia escolhido suas recentes vítimas entre os habitantes de um bairro nobre da cidade. Com suas longas vestes negras, a ampulheta pendurada na cintura e a medonha foice nas costas, andava frequentemente pelas ruas do local, sempre à espreita nas esquinas e telhados de olho nas pessoas que, por desventura, passassem por ali.

Na região havia um rapaz apessoado, exibindo vitalidade em seu carro do ano, naturalmente rodeado de belas mulheres. Aproveitava a juventude sem pensar na possibilidade de um dia perder tudo aquilo que tinha de bom e prazeroso. Vez em quando a Negra Senhora levava alguém de seu convívio, mas ele nem se dava conta, até que um dia foi alertado por um amigo do provável perigo que corria, já que a morte demonstrava uma estranha predileção pelas pessoas do local, e ele poderia estar em sua lista negra. De início o rapaz não se preocupou. Não havia lógica alguma naquele aviso, não era motivo de preocupação. Ademais, ele era jovem e esbanjava saúde. Nos dias seguintes, no entanto, as palavras do companheiro começaram a incomodá-lo.

Era só o que pensava, dia e noite. Passou a não ter mais sossego. Mas, disposto e resoluto como sempre fora, finalmente encontrou uma solução para o caso. Deixou cabelo e barba crescer, vestiu-se de mendigo e se refugiou na periferia da cidade entre os demais indigentes. Se ele fosse o escolhido em seu bairro, a morte daria com os burros n’água, pois não o encontraria por lá. Bem disfarçado, ali estava totalmente seguro, bem distante do ambiente por onde ela rondava.

Coincidência ou não, pouco tempo depois a dona morte apareceu no fatídico lugar à procura do rapaz. Ele era a bola da vez. Notando a sua ausência, passou a perguntar por seu paradeiro, até que foi informada sobre a mudança de aparência e a brusca fuga do indivíduo. A investigação prosseguiu e logo ela alcançou a periferia, onde intensificou a procura. Numa tarde, aproximou-se de alguém todo sujo, roupas rasgadas, longas barbas e cabelos, e indagou sobre o rapaz. Era ele!
Disfarçando a surpresa, o falso mendigo não se traiu e apontou um distante amontoado de casebres onde, segundo ele, haveria melhores chances de localização da vítima desejada. A morte ergueu os olhos avermelhados, mediu a distância até o lugar, coçou a face com as unhas pontiagudas e disse: “Bem, por hoje já estou cansada; amanhã prossigo a busca. Entretanto faz dias que não levo alguém para o negro abismo onde moro. E já que não achei o rapaz bonito, você mesmo serve!

E a longa foice cortou o ar, jogando ao chão uma cabeça que rolou e parou com a face voltada para o céu, exibindo dois olhos arregalados.

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