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Miguel Patrício -

A PERERECA CIGANA

A tralha foi juntada, sem muitos cuidados, e colocada no automóvel naquele retorno de um passeio beira-rio. Roupas de cama, utensílios de cozinha, caixas de pesca e outras pequenas coisas que, distantes da civilização, passam a ter grande valor. Em meio a elas se escondia uma perereca, isso mesmo, daquelas de verdade, um anfíbio “hylidae”, que só se manifestou nos últimos quilômetros da viagem, etapa transcorrida já no período noturno. Ganhou logo o apelido de perereca cigana.

Primeiro ela pulou no vidro lateral chamando para si a atenção, depois saltou no peito de meu companheiro, no banco ao lado, que se contorceu, jogando-a no para-brisa à nossa frente e ali ficou mostrando sua silhueta repugnante. Eu, que me ocupava da direção, passei a me dedicar aos movimentos do tal anfíbio já que, obviamente, não podia me assustar. Às vezes ela se deslocava devagar, em outras se arremessava em qualquer direção buscando uma saída, mas nunca achava o vidro aberto. Numa dessas ocasiões, parou em minha perna direita por alguns segundos, depois sumiu novamente. Faltava coragem de pegá-la com as mãos, e as bravas tentativas não obtiveram sucesso. O jeito foi seguir em frente levando conosco aquela pequena e esperta criatura.

Chegamos, enfim! E nos últimos metros, já procurávamos um local próprio para abandonarmos de vez a parceira de viagem. Lá estava: uma nascente formava pequeno lago que se perdia por entre a vegetação aquática. Era perfeito! Ali, mesmo distante de sua família, teria condições de levar uma vida normal. E conhecer novas pessoas até, quer dizer, novos companheiros de sua espécie. Com a parada do carro, ela surgiu mais uma vez no para-brisa dianteiro. Peguei um pequeno tecido no porta-luvas e a espremi com carinho no canto do vidro, segurando-a finalmente nas mãos.

Até aí tudo bem, afora os sustos da viagem, é claro. Com a hylidae nas mãos – para não ficar pejorativo – fui atravessar a rodovia e depositá-la na beira do lago. Ela se mexeu dentro do embrulho e eu me assustei, afrouxando os dedos. Acabou caindo ao chão a poucos passos de mim. Nesse instante, voltei-me para a curva da estrada e avistei o que temia: estava chegando um automóvel. Olhei no chão a perereca que se movia lentamente em direção ao lago. Pensei em pegá-la novamente, mas parecia não dar mais tempo. Olhei o carro de novo, olhei a perereca e já era tarde. Só escutei um “plec” naquele fatídico e mal-iluminado lugar.

Não sei se tenho culpa, sei que tive boas intenções com a tal perereca cigana. Mas isso não foi o suficiente. De boas intenções e pererecas o mundo está cheio!

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