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Miguel Patrício -

CASCALHEIRA DO MIGUEL

Peço permissão para compartilhar com vocês uma de minhas alegrias: a pesca esportiva. Sempre que o trabalho permite reunir os amigos, partimos entusiasmados para a beira do rio. A farra começa desde que entramos no veículo que nos conduzirá ao destino e perdura por todos os dias que por lá ficamos. E acontecem muitas coisas divertidas...

Num dos lugares que mais frequentamos, é comum se dar nomes ao ambiente, à localidade aonde se vai como, por exemplo, Ceva de Baixo, Ceva de Cima, Primeira Ilha, Poço da Onça, Curva do Jatobá e assim por diante. E algumas paragens são especiais, pois levam os nomes das pessoas que frequentam o pesqueiro. Isso acontece quando algum fato justifica a denominação. Algo de bom, ou mesmo ruim, um acontecimento singular que se propaga e passa a ser conhecido pela maioria dos pescadores. Assim existe a Pedra do César, de onde o experiente homem volta sempre com o viveiro repleto de peixes. Há o poço do Aniceto, escolhido com esmero pelo colega e que já nos deu diversos exemplares de surubim. Tem o Saran do Ronaldo, região de certos arbustos onde frequentemente amarramos a canoa para a pesca noturna. Ali o alegre sujeito sempre pega os peixes maiores. Todos sabem também de uma pedra em que o companheiro João, de apelido Passarinho, bateu o motor de popa quase pondo a canoa a pique, devido à pressa de chegar primeiro ao lugar ideal da pescaria. Surgiu então a Pedra do Passarinho. Pode-se acrescentar à lista, o Pau do Esmar, local piscoso, mas que tem um tronco de madeira sob a água dificultando a pesca, já que muitos anzóis constantemente se enroscam nele. Ah, e a Pedra do Prefeito, onde o administrador da cidadezinha próxima se aninha dentro d’água, cumprimentando a todos que passam de canoa ao seu lado. E várias outras...

E eu, como pescador do local, sempre tive a vontade de ter o meu nome registrado em alguma parte do pesqueiro, um pedacinho do rio só meu, com a minha assinatura. Eu ficaria muito contente de saber que alguém pronunciaria minha alcunha ao passar pelo lugar. Um barranco, uma árvore, uma corredeira do rio, sei lá. Alimentei esse sonho por vários anos em vão, mas agora finalmente aconteceu, não exatamente do jeito que queria... Foi assim. A gente estava na Ceva de Cima, a vários minutos de canoa do rancho. Lembro-me que no almoço eu havia exagerado um pouco, sabe como é, beira de rio o apetite é sempre maior. E vocês não conhecem a rapa do arroz que o parceiro Arnaldo faz... Bem, a noite se avizinhava e resolvemos voltar. No caminho, a minha barriga reclamou. E continuou reclamando. Eu tentei adiar, querendo chegar primeiro ao rancho, já que nem papel higiênico tínhamos levado, mas não foi possível. A meu pedido, a embarcação parou logo abaixo numa região de cascalho para facilitar minha fuga desesperada em direção ao mato, sob a gargalhada dos colegas. Pronto! Além dos carrapatos que peguei, o lugar, a partir daquele instante foi batizado por Cascalheira do Miguel.

A história da dor de barriga se alastrou pelos demais ranchos; em poucos dias todos por ali ficaram sabendo do fatídico acontecimento e adotaram o nome sugerido. Não foi bem como eu pensava, mas fui lembrado. Agora o rio tem meu nome entalhado em seu leito, mais precisamente numa cascalheira, a Cascalheira do Miguel.

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