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Miguel Patrício -

CHUMBO TROCADO NÃO DÓI

Certo amigo se diverte, sempre que tem oportunidade, contando às pessoas uma desventura que se deu comigo e eu, para descontar, também narro um acontecimento em que ele é protagonista e não se saiu muito bem. Quando estamos juntos em alguma reunião, as duas histórias são narradas, nem sempre na mesma ordem, para total alegria dos presentes. São mesmo interessantes e divertidas...

Aquela que se deu comigo aconteceu em uma das tradicionais pescarias de domingo. Foi mais ou menos assim. Éramos quatro; dois na cabine do automóvel e dois na carroceria. Eu me divertia lá atrás apreciando os raios do sol e a paisagem, sentindo o vento no rosto e contando anedotas ao meu companheiro. Tudo corria bem, afora os solavancos da irregular estrada de terra. A certa altura, o condutor diminuiu a carreira ao avistar um velhote que seguia a pé na mesma direção. A carona foi oferecida e, com dificuldade, o homem subiu ao nosso lado. Após os cumprimentos, a habitual animação que antecede toda pescaria prosseguiu. Alguns quilômetros à frente, paramos próximo a um colchete que cuidava da entrada do pequeno sítio onde aquele senhor residia. Demonstrando o mesmo esforço devido à idade já avançada, ele conseguiu tocar o chão e, chegando à cabine, agradeceu a carona, desculpando-se pela demora em descer do veículo. Foi aí que me dei mal. Querendo ser amável ou, simplesmente entrando na conversa, disse:

* Não se preocupe, seu Zé, a vida é mesmo assim. Eu também estou chegando lá.

O homem ergueu a cabeça alguns graus, voltando-se para o meu lado e respondeu:

* O senhor já está lá!

Esse foi o fato dominante da pescaria. Vez em quando um dos companheiros, entre sorrisos, repetia: “O senhor já está lá” e os outros caíam na risada.

A infelicidade do amigo que me referi no começo, não foi menor. Estava ele, mulher e filho em seu automóvel novo, vermelho, tipo esporte, parados à espera do sinal abrir, quando um vendedor se aproximou, oferecendo algumas frutas. O condutor, também de certa idade como eu, abaixou o vidro, mostrando o interior do carro, inclusive a companheira loira, sempre bonita e elegante.

* Você quer, meu bem?

Ao ouvir a conversa, o vendedor perguntou:

* É sua esposa?

Recebendo a confirmação, o rapaz observou mais uma vez o carro, a mulher, as rugas do homem e comentou:

* O senhor tem dinheiro, hein?

O sinal abriu e todos foram sorrindo para casa. Na verdade, o único erro desse meu amigo foi ter revelado o caso para mim. Agora tenho como revidar quando ele resolve se divertir às minhas custas sempre que encontra alguém. Assim vamos, ele caçoa de mim, e eu brinco com ele. Aliás, chumbo trocado não dói.

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