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Miguel Patrício -

CROCHETANDO

Após um dia de trabalho, eu voltava para casa em meu automóvel na velocidade de minha morosa preguiça do fim da tarde. As casas passavam, as portas do comércio fechavam e eu seguia. A certa distância, quando já me aproximava do destino, uma cena me gritou a atenção: calmamente pela calçada, uma mulher andava de cabeça baixa, com as mãos unidas, mais ou menos na altura do peito, em um constante e quase imperceptível movimento.

Alguns segundos depois, um pouco mais perto, entendi o que realmente acontecia. Era uma senhora, já de certa idade, que manuseava com maestria uma agulha na demorada arte do crochê. Mesmo caminhando, ela não parava com a labuta e já cobria os seus braços com um bom pedaço de trançado, um futuro tapete ou um caminho de mesa, talvez. E ela seguia crochetando, sem me notar, sem notar as outras pessoas que passavam. Nem devia, penso eu, estar pensando nos problemas da vida. Ela caminhava crochetando, simplesmente.

Logo adiante, parei frente à minha casa, mas não desci do automóvel. À distância ainda via aquela senhora seguindo, levando minha simpatia e meu apreço. É comum se ver pelas ruas jovens plugados no celular, digitando rapidamente suas mensagens, fones no ouvido, sempre distantes do mundo ao seu redor, mas uma senhora crochetando é novidade. Não pude deixar de ver e admirar. Ela ocupava o seu tempo da melhor maneira possível. Ficou em mim a certeza de que, mesmo em movimento, fazia um belo trabalho. E ela seguia, alheia a tudo e a todos, simplesmente crochetando.
Meus olhos se prenderam naquele andar oscilante até a mulher alcançar e se esconder na esquina. E eu, ainda com as mãos ao volante, ali fiquei alguns minutos, enquanto minha mente divagava, sem rumo, tentando entender aquela mensagem. Havia algo mais naquela senhora, que parecia carregar consigo um leve sorriso, vivendo com satisfação o tempo que ainda lhe restava. Ela seguia embaraçando nas linhas uma eventual desventura, driblando com destreza uma inevitável saudade. Penso que não construía apenas um tapete ou um caminho de mesa; seguia crochetando sonhos, se não para esta, quem sabe para a outra vida.

O fato é que aquela senhora fez nascer em mim uma paz que ainda não consegui explicar. Sua passagem deixou um rastro de luz pela calçada, mostrando que a felicidade é possível e que não exige muito de nós. Felicidade é só isso, é quase nada.

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