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Miguel Patrício -

Fazendo a Barba

A tarefa de fazer a barba, se bem analisada, assemelha-se à maneira do homem levar a vida, de conduzir as suas ações numa direção correta, mais produtiva e humana. O momento em que ele pega o barbeador, o creme ou a espuma e se coloca diante do espelho é idêntico àquele em que desperta e se levanta para começar um novo dia. Siga-me nessa comparação...

Para início de conversa, a referida atividade exige calma e tranquilidade; deve ser realizada num momento de folga ou, no mínimo, num espaço de tempo razoável, até mesmo porque o produto espalhado na pele demora um pouco para fazer o efeito desejado. Dessa forma, é necessário paciência, como se deve ter no dia a dia, principalmente com as pessoas. Pode-se acrescentar aí o fato do aparelho cortar o rosto se for deslizado com pressa ou com força. Assim são as atividades, os olhares e as palavras que devem ser dirigidas aos semelhantes com suavidade.

Quase sempre a face apresenta sinais de espinhas, pelos inflamados, pequenas cicatrizes e necessita de cuidados. Dessa maneira são as pessoas; quase todas cheias de feridas, com sinais do tempo e, por isso, se machucam à toa. Além disso, depois de certa idade, é preciso saber lidar com as rugas, conhecê-las melhor, acostumar-se com seus contornos, esticá-las com carinho para depois passar a lâmina. De tal modo deve ser o trato com os idosos, que necessitam de constante compreensão, zelo e afeto para que não se machuquem, por fora e por dentro.

O início da tarefa é também motivo de reflexão. O homem não nota, mas começa a fazer a barba sempre do mesmo lado do rosto, por costume, por acomodação. É automático, e segue assim a vida inteira desde que apara os primeiros fios ralos e adolescentes. Se ousasse um pouco, a atividade poderia ser mais agradável e, quem sabe, feita em menos tempo. Característica inerente às pessoas, que vão ao trabalho ou à escola diariamente pelas mesmas ruas, dobrando as mesmas esquinas, passando os mesmos sinais. Assim deixam de apreciar outras paisagens, fazer novas amizades, conhecer indivíduos e lugares diferentes, quem sabe melhores que os rotineiros.
De verdade, o ato de fazer a barba está intrinsecamente ligado com a vida. É preciso seguir, tocar a pele e o mundo, desfazer-se dos pelos e dos erros, buscando a imagem mais bonita, o sorriso gratificante do dever cumprido no final da caminhada. Vivo assim, fazendo a barba; tentando ser melhor a cada amanhecer. E cada fio que corto representa um dia que se vai...

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