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Miguel Patrício -

NOSSOS PEQUENOS SONHOS

Sempre imaginei que sonhos existem para serem realizados. Não há razão de ser para um desejo, uma aspiração que se contente apenas a brilhar nos olhos de alguém e depois de algum tempo se dissolve e foge na neblina de um dia frio. Estes não são verdadeiros sonhos, são fantasias, ilusões, quimeras, devaneios...

Quando criança, lembro-me que a vida era um pouco mais difícil, pelo menos para mim. Escorada numa frágil condição financeira, minha família morava no campo e, nos terreiros de uma ou outra fazenda, meus sonhos nasciam e muitos deles pereciam sem conhecer a realidade. Eram simples, na verdade muito pequenos, conforme era o nosso mundo, a nossa capacidade de querer. Nem estou falando da vontade de possuir uma bola, um carrinho, um brinquedo qualquer. Sempre quis, por exemplo, andar na aba da carroça, puxada por um cavalo, da fazenda até o povoado ali perto. Minha mãe nunca deixava e me colocava no banquinho de madeira, protegido entre ela e o meu pai. Este e dezenas de outros sonhos ficaram perdidos pelos barrancos desse caminho.

Claro, não sou o único a sonhar, principalmente os pequenos sonhos. Já ouvi alguém dizer que, na infância, seu sonho era tão simples que não dava nem para uma bicicleta. Sempre gostei dessa frase. E assim era para quase todos nós, mas o recorde dessa simplicidade, o exagero de querer tão pouco aconteceu com certo amigo e, confesso, me emociono ao relatar o caso aqui nestas poucas linhas. Ele vivia, ao lado de mais doze irmãos, contando homens e mulheres, numa chácara colada a uma pequena cidade. Como ele mesmo brinca, dava um time de futebol e mais dois de reserva. Com tantas pessoas em casa, sobrava trabalho e era natural que sempre faltasse algo para a subsistência da família. Seus pais batalhavam duro, ao lado dos filhos mais velhos em busca de uma vida melhor. Meu amigo se encontrava entre os menores e, vagando com os irmãos por ali nos quintais dos vizinhos, comendo o que encontravam, no final do dia sempre havia aqueles que reclamavam alguma dor no estômago. Sua mãe, dentro das limitações que vivia, comprava um sonrisal, aquele efervescente antiácido que combate a azia, e dividia entre os meninos. Um pedaço para cada um que necessitasse. Assim corriam os dias. Certa vez, em seu aniversário, perguntaram-lhe qual presente gostaria de ganhar e, com aquele brilho nos olhos já citado por mim, respondeu que queria muito, um dia, ter um sonrisal todinho só para ele. Era o seu sonho; seu singelo, mas tão importante sonho.

Sonhos existem para serem realizados. Então, não deixe a vida passar sem lutar pelos seus, principalmente aqueles mais simples, os pequenos sonhos. Eles são os mais puros, desprovidos de ambição, luxo, fama, ou poder. São os verdadeiros sonhos, porque nascem da pureza que habita nossa alma.

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