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Miguel Patrício -

O CINEMA TÁ PEGANDO FOGO!

Poucos vão se lembrar da história. Já se foi bastante tempo. E talvez alguns detalhes sejam omitidos ou até mesmo distorcidos pela névoa cinzenta da passagem dos anos. Mas vamos lá...
O fato se passou no antigo Cine Lúcio Prado, anos sessenta, numa das inúmeras exibições do filme Paixão de Cristo, em plena semana santa. É bom ressaltar que as boas películas atraíam centenas de espectadores, e as enormes filas para comprar o ingresso dobravam quarteirões. Elas nasciam defronte à janelinha da bilheteria, invadia a rua, contornava a praça no sentido horário, abeirava os muros das casas e se perdia nas imediações da igreja matriz. Era uma dessas ocasiões, inclusive com repetidas sessões durante o dia para atender a enorme demanda de público.

Os ponteiros do relógio já apontavam as sete horas da noite e havia começado mais uma sessão com o recinto do cinema todo lotado, e a fila para a próxima apresentação já iniciada na calçada. O local recebia também os curiosos que chegavam da praça em frente. O aparelho de exibição dos filmes localizava-se num segundo andar, junto às cadeiras especiais, que eram apelidadas de “poleiro”, a alguns metros acima do grande público. Lá de baixo, podia-se ver a movimentação das pessoas nas cadeiras e no pequeno estúdio. As repetidas sessões haviam exigido das máquinas um esforço maior naquele dia e uma delas começou a reclamar, soltando fumaça e estranhos ruídos, culminando num inesperado clarão, o que interrompeu bruscamente a projeção. O público se assustou, e uma voz se elevou entre o murmúrio das pessoas, gritando em tom aterrorizante: Gente, o cinema tá pegando fogo!

Vocês já viram um estouro de boiada? Pois foi assim! Ainda no escuro, o povo se ergueu de imediato das poltronas, se amontoou no corredor central e se lançou em disparada na direção da saída que, naquele instante, estava bem guardada para evitar a entrada dos outros lá fora. Assim a apavorada multidão se contorceu entre as paredes, num desarticulado vai e vem sem rumo e sem saída. O alarido era tremendo! A gritaria se espalhou e o cinema tremeu, balançando a estrutura. Algumas pessoas mais afoitas já viam o fogo se alastrar no poleiro e avançar em sua direção. A coisa foi feia! Quebraram poltronas, rasgaram as cortinas, amassaram os ferros da catraca, pisaram o lanterninha, até que, finalmente, arrebentaram no peito o portão que se encontrava no fim do corredor lateral, logo após os banheiros, e alcançaram a rua atropelando quem se encontrava no caminho.

Alguns minutos depois, a alucinada turba percebeu que nada de grave havia acontecido e que aquele pânico fora em vão. Não havia uma chama sequer, e o cinema continuava de pé, intacto como sempre. Tudo terminou em gargalhadas e pequenos ferimentos. Só não ficou registrado na história o autor da brincadeira, o espirituoso que havia gritado naquele momento de indecisão: O cinema tá pegando fogo!

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