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Miguel Patrício -

PÁSSAROS E GAIOLAS

Das maldades que há no mundo, praticadas pelo ser humano, uma das piores para mim é o gosto que algumas pessoas têm de prender passarinhos em gaiolas. Talvez por serem inúmeras, essa passa despercebida. Quando chego a um lugar qualquer e vejo os coitados presos, tenho uma vontade enorme de soltá-los, mas como não posso fazer isso, vou logo embora, e o indivíduo responsável por aquilo perde de mim toda a consideração e o apreço que tinha. Para entender melhor minha indignação, imagine você sendo pego e colocado dentro de um local rodeado de grades, com um metro quadrado de proporção, tendo água e comida – quase sempre a mesma – vendo as pessoas livres lá fora, caminhando, viajando, escolhendo seu destino. Além disso, sendo motivado a cantar para agradar seu dono. Esse é o contexto, mas as pessoas não entendem ou fingem não entender.

Nunca prendi um passarinho em toda minha vida. Quando criança, essa prática era ainda mais habitual. Nas fazendas, nas pequenas cidades, quase sempre havia uma gaiola pendurada na parede com um desses cantores para alegrar a casa. Observe bem este contraste: o cântico triste do prisioneiro, longe de sua família, de seu verdadeiro lugar contribuía para a felicidade de quem o prendia ali. Lembro-me que os moleques usavam uma madeira apropriada e construíam armadilhas chamadas alçapões que, ao desarmar, capturavam as aves. Outra estratégia era o uso do visgo, certo tipo de cola colocado no arame da cerca. Os pássaros assentavam, pregavam os seus pezinhos e em seguida eram encarcerados para sempre. Eu observava aquilo tudo, desaprovava as atitudes, mas não era ouvido.

Os monstros atuais que praticam essa crueldade defendem-se dizendo que os pássaros, comprados em um estabelecimento comercial, foram criados para serem prisioneiros e que não sobreviveriam fora da gaiola. Que argumento absurdo! Se não comprassem, não haveria esse tipo de comércio. Aliás, deveriam ser presos quem vende e quem compra. Certo dia, em casa de um conhecido, o canto de um curió me deu boas-vindas. Surpreendi-me com o entusiasmo do bichinho e principalmente com a cara de satisfação do dono. Conversa vai, conversa vem e a criatura das trevas, travestida de ser humano, gabou-se do alto valor que pagou pelos pássaros. Mas, como pássaros, se estou vendo apenas um? Perguntei. Ele mostrou, a certa distância, outra gaiola com a frente voltada para a parede, ocultando uma fêmea que incitava o curió a cantar. Uma maldade sem tamanho! Se realmente houver inferno, quem prende os passarinhos vai direto pra lá!

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