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Miguel Patrício -

Tirando sobrancelhas

Para começar, o nome já é complicado! Nunca consegui internalizar nessa minha cabecinha se o correto é sobrancelha ou sombrancelha. Desvendei inúmeros outros segredos da gramática, mas carreguei pela vida afora essa dúvida. Até mesmo agora, para intitular meu texto, tive que recorrer ao dicionário. E a dificuldade mencionada vai além do nome, aliás, ela se acentua se acaso alguém tenta, como eu, tirar a tal da sombra... da sobran... Pronto! Já esqueci como se escreve.

Foi arranjo de minha mulher. Ela cismou que esses meus pelos acima dos olhos estavam meio grossos e aproveitou que eu a levava em sua depiladora, sua coisa assim, e me fez entrar. A profissional, uma senhora de meia idade, corpo avantajado e seios fartos, viu em mim excelente oportunidade de lucro, um cliente em potencial e concordou que eu necessitava urgentemente de seus cuidados. Num sorriso, disse que me atenderia com prazer. Foi aí que me dei mal.

Eu sabia que ia doer um pouco e que homem é mole para essas coisas, mas não esperava passar o sufoco que passei. Vi uma cadeira e me sentei, voltando o rosto para o alto. Esforço inútil, pois a dona usava outra técnica mais cômoda e mais efetiva. Ela se aninhou num sofá e ordenou que eu me deitasse e apoiasse a cabeça em uma de suas pernas. Estranhei o procedimento, olhei para minha esposa e obedeci. Fiquei a um palmo do rosto da depiladora, que segurava fortemente minha bochecha e alisava minha testa sempre que arrancava alguns fiapos de cabelo. Mas o pior estava por acontecer...

Buscando uma melhor posição, um ângulo mais favorável para a execução do trabalho, aquela coisa me puxou para o aconchego de suas pernas e se curvou sobre mim, arrastando aqueles seios pelo meu rosto, pra lá e pra cá, num interminável bailado. Dois seios farturentos, do tamanho de jacas maduras, tinham até o cheiro de fruta perdida. Eu já não suportava a falta de ar e o excesso de vergonha; fechava os olhos e rezava para que aquilo tudo acabasse o mais rápido possível. Nada mais podia fazer.

E a tal mulher não estava nem aí. Arrancava os cabelos da minha testa e amassava os peitos na minha cara, no maior bate-papo com minha esposa, como se aquele modo de agir fosse algo normal. Em certo momento quase me levantei sem terminar o serviço. Ela começou a repetir constantemente que seu marido estava quase chegando. Sempre que mencionava esse retorno, eu me sentia mais sufocado ali debaixo daqueles peitos. Quando ela se ergueu e estendeu um espelho para eu conferir, rapidamente me levantei, vermelho feito um peru. Nem vi como ficou o tal do serviço.

Nunca mais eu mexo com isso. Não foi uma experiência agradável para mim. Nunca pensei que tirar sombrancelhas fosse assim uma tarefa demorada e sufocante. Ou será sobrancelhas?

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