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BISCOITO-DURO


Prof. Miguel Patrício

BISCOITO-DURO


           Sou biscoito-duro! Para entender a afirmação é preciso que me acompanhe no tempo, mais ou menos 40 anos atrás. Venha comigo. O cenário é a Fazenda Salinas, município de Panamá, em nosso querido estado de Goiás. O momento são os preparativos que antecedem a Festa do Divino Pai Eterno. A tradição e a forte religiosidade nos chamavam. Meus pais e minhas irmãs corriam de um lado para o outro recolhendo o que era necessário para a viagem. A carroça atrelada aos cavalos levava roupas limpas e bem passadas, colchões enrolados e amarrados ao meio, lona para a barraca, tralha de cozinha e estampas de vários santos, entre elas a minha preferida: a imagem de Santa Luzia.

Eram sete dias de festa e chegava a hora da saída. De mim, não foram levados pelos anos alguns detalhes, talvez sem importância. Bem nítido em minha mente aparece o rosto alegre do meu pai, levando no bolso o pouco dinheiro que conseguira economizar durante o ano; lembro bem os cuidados da minha mãe com a organização da carroça para caber tudo o que era necessário, além dos tripulantes; ainda vejo os cachorros correndo em volta e latindo suas despedidas. Eu, caçula da família, tinha um lugar especial sobre um colchão, no fundo da carroça. Ao meu lado, uma lata dessas enormes cheia de biscoito de queijo. Era nosso lanche para o trajeto e os primeiros dias da festa. Gastávamos o dia inteiro. No meu colo, se cansava a imagem de Santa Luzia, carregando a folha verde e o pratinho com seus dois olhos azuis.

Da nossa região, muitas pessoas iam a pé, pagando suas promessas, suas graças recebidas: a boa colheita, a pureza dos animais e, principalmente, a boa melhora dos problemas de saúde que sempre atingiam um ou outro da família. O cumprimento, as palavras de incentivo e as frases de devoção ficavam pairando no ar, junto à poeira da seca estrada do mês de julho. A fé nos impulsionava e os olhos voltados para frente refletiam o brilho da felicidade que emanava das primeiras casas do povoado. A carroça rangia suas dores ao alcançar o calçamento irregular da rua principal. Dos dois lados, enfileiravam-se as barracas dos romeiros e as tendas de “souvenir”. A primeira parada era na igreja da praça para agradecer as bênçãos e beijar o santo.

O instante parecia mágico! Minha mãe me pegava no colo e me inclinava sobre o tecido colorido e sagrado de Nossa Senhora. Parece que dizia “Você me deu este filho e hoje eu o trago para você”. Não há como esquecer esse momento. Ele cresceu forte em minha vida. Cresceu comigo, guiando meus passos e alimentando minha fé ao longo dos anos. Hoje sou romeiro do Divino Pai Eterno. Caminho em busca de minhas raízes, de minhas lembranças; caminho ao encontro de meus pais que já se foram, mas, sei, estão presentes ali, todo ano, na festa que uniu e protegeu nossa família. Sou romeiro e agradeço por isso. A mesma felicidade de antes me acolhe e me afaga. As mãos protetoras do Divino me embalam e amenizam as minhas dores – angústias da vida e de uma saudade que se dissolvem ao alcançar as cercanias do lugar hoje diferente para muitos, porém o mesmo para mim.

Sou natural de Panamá, com muito orgulho. Não me envergonho de minha origem humilde e de minha religiosidade. Sou biscoito-duro, alcunha que a cidade recebeu por longos anos em sua história, talvez devido aos biscoitos de queijo que endureciam com o passar dos dias nas inúmeras latas que chegavam para a festa. E ainda hoje, todo dia 13 de dezembro, rezo o terço para minha santa, santa dos olhos, a Santa Luzia de todos nós.

 

Miguel Patrício é escritor, professor e radialista.

Contato: miguelpaodemel@gmail.com

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