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"Sempre tive os pés no chão"


Dr. Gustavo

"Sempre tive os pés no chão"

 

Por Warlem Sabino 

 

Gustavo Carlos Ferreira, 31, foi um dos delegados mais jovens aprovados em concurso público no Estado. Ele obteve o êxito em 2003, aos 22 anos. Tomou posse um ano depois, no auge da juventude. Ainda assim, garante que não passou por maiores problemas no início da carreira.

“Sempre tive os pés no chão e seria muito difícil que eu me assustasse com a profissão de delegado. Desde cedo aprendi a me virar para vencer na vida. Sou de família muito humilde e sempre procurei se pragmático e continuar estudando. Com 17 anos já trabalhava para pagar a faculdade de Direito. Aprendi cedo a não ter medo de nada”, explica.

Gustavo, no entanto, é diferenciado. Não só pela maneira calma e pausada com que conversa ao telefone ou pessoalmente. Com 17 anos não tinha um trabalho qualquer. Era professor de escolinha infantil. Começou dando aulas de Matemática, depois seguiu para Português e Literatura Brasileira. Tudo isso fazendo o curso de Direito em uma faculdade particular de Anápolis, onde morava a família.

“Meu pai era taxista e minha mãe dava aula nesta mesma escolinha. Pra você ter uma idéia das dificuldades, na minha turma de Direito eu era o único aluno oriundo de escola pública. Todos eram de escolas particulares e a maioria de Goiânia”, recorda Gustavo.

De 1997 a 2001, durante o período em que fez o curso superior, deu aulas na escolinha. Foi um período difícil, pois trabalhava durante o dia e estudava à noite. E, com o pouco dinheiro ganho mensalmente, passou os cinco anos da faculdade sem comprar um único livro. “Tinha uma Constituição Federal que ganhei de um deputado”.

Ao se formar, conseguiu emprego de assessor de promotor no Ministério Público de Anápolis, no período da tarde (13 às 18 horas). O trabalho pelo menos era na área, mas os recursos continuavam escassos. E tempo também não sobrava, pois para economizar com o ônibus e estudar de graça nos livros do promotor, ia de manhã para o MP.

“Quando tinha dinheiro comprava almoço, mas quando não dava eu apenas lanchava”, lembra. À noite, graças a influência do promotor, começou a dar aulas em um cursinho preparatório na cidade, pois o sonho de advogar estava indo por água abaixo. “A ideia inicial era advogar, montar um escritório, mas não teve jeito. Anápolis já tinha advogado demais.”

Sem ter para onde correr e necessitando desesperadamente de um emprego para mudar de vida, Gustavo apostou nos concursos públicos da carreira jurídica – juiz, promotor ou delegado de polícia. Passou no primeiro que prestou, em 2003, para delegado de Polícia Civil de Goiás.

“A verdade é que eu nem esperava passar. Tinha quase dez mil candidatos. Quando eu fui fazer a prova, na Praça Universitária, em Goiânia, eu vi aquele tanto de gente de terno e gravata, a maioria de São Paulo. Eu me perguntei: o que estou fazendo aqui? Nunca que vou dar conta de passar”, revela.

 

Círculo de amizade

Hoje, já delegado experiente, ele lembra com carinho que, no início, além da tranquilidade própria, precisou de ajuda de outros delegados para superar os problemas. “Meu pai era muito simples e me ensinou a ser uma pessoa simples. Por isso prezo muito os amigos e são eles quem dão força pra gente nos momentos difíceis.”

Quando assumiu a primeira delegacia, em Buriti Alegre, em 2004, e um ano depois, em Goiatuba, precisou de orientação dos colegas mais antigos da regional. “Fui muito bem acolhido pela doutora Lúcia Aparecida, o doutor Maluf e o doutor Marco Antônio. Eles foram fundamentais para que eu não fizesse bobagem. Delegados mais novos estarem juntos com os mais antigos é fundamental para evitar problemas.”

Hoje, mantém um círculo muito grande de amizades na região sudeste do Estado. Desportista nato, o delegado é presidente da Comissão Disciplinar do Futebol Amador. Também é presidente, jogador, técnico e diretor de futebol do “famoso” Garra Futebol Clube, equipe amadora de futebol soçaite de Goiatuba.

O time disputa o campeonato amador da cidade, mas a estreia este ano foi com derrota. “O problema do Garra é a Pecuária de Goiatuba. Os jogadores estão muito preocupados com o toddy (cerveja) que será servido na festa e não conseguem jogar, o negócio desandou. Por isso eu consegui adiar os demais jogos do time para agosto. Até lá as festas vão passar e poderemos jogar melhor.”

Torcedor da Anapolina inveterado, Gustavo agora é fanático pelo Azulão do Sul, o Goiatuba, que disputa a terceira divisão do Campeonato Goiano de Futebol. Ele, inclusive, admite a possibilidade de assumir a presidência do Azulão. “Eu vou acabar assumindo lá pra ver se o time volta pra primeira divisão”, diz, aos risos.

Democracia

Se num passado distante o delegado Gustavo Ferreira precisou trabalhar o dia todo e estudar à noite para sobreviver, hoje a situação está um pouco mais controlada. O ritmo de vida continua o mesmo – trabalhando em três períodos –, mas o rendimento financeiro hoje é bem superior ao do tempo em que era professor de escolinha infantil.

Aos 31 anos, além de delegado, dá aula no período noturno de Direito Penal e Processo Penal em universidades, além de ministrar palestras e cursos em Goiatuba e região. E lembra que foi o curso de Direito que transformou sua vida.

“O Direito propicia fazer uma revolução social na vida de uma pessoa. O Direito me tirou de uma camada da sociedade e passou para outra. Não que eu seja rico, mas minha vida melhorou muito. O Direito talvez seja o curso mais democrático que exista no País hoje, pois favorece o mérito. Na cadeira do concurso todo mundo é igual. Só vai passar quem realmente se esforçar.”

Além de Goiatuba, Gustavo responde pelas cidades de Porteirão e Panamá. Diz que gosta muito da região e, ao menos por enquanto, não tem vontade de se transferir. “Eu trouxe minha mãe e minha irmã para morarem em Caldas Novas, para ficarem perto de mim. A família é pequena e tem de ficar junta. Gosto muito de Goiatuba, já me integrei com a sociedade, sou maçom e muito respeitado na cidade. Talvez num futuro eu possa voltar para Anápolis. Mas no futuro.”

 

Perfil

Nome: Gustavo Carlos Ferreira

Data de Nascimento: 09.06.1980

Local de Nascimento: Anápolis

Estado Civil: Divorciado

Formação: Direito, com especialização em Ciências Penais

Ano em que ingressou na Polícia Civil: 2004

Delegacia em que atua: Goiatuba

Hobby: Craque do futebol

Time que torce: Anapolina

Filme: Gladiador

Livro: Transformando Suor em Ouro, de Bernardinho

Comida Preferida: Feijoada

Ídolo: Ayrton Senna

Sonho de consumo: Sítio

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