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A Corrida do Tempo

A Corrida do Tempo

Foi há muitos anos atrás. Éramos dois: meu irmão e eu. Corríamos felizes pelo terreiro da fazenda onde morávamos. Correr! De todos, era aquele o melhor brinquedo. A liberdade nos carregava em seus braços, de um lado para o outro, da porta da sala para a porta da cozinha. Meu Deus, quanta alegria!

Do curral até ao mangueiro, era um pulo só, e incontáveis eram as voltas ao redor do engenho de cana. Nas sombras das mangueiras, misturavam-se nossos rastos descalços, voltados em todas as direções, como os rastos das rolinhas no chão molhado, ao lado das poças d’água. Melhor mesmo eram as curvas do estreito caminho ladeado pelo capim, da velha porteira até ao pequeno córrego que se escondia no matagal. Chegar primeiro não era o mais importante. Bom era sentir o vento nos cabelos, a quentura do sol, o sal do suor que corria no rosto. Bom era lançar-se no espaço, na ânsia da vida sentir-se voar; nos poucos segundos até o pé tocar o chão, percorrer vales, contornar montanhas na magia que têm as crianças de fazer maior a felicidade.

Vez em quando uma voz preocupada, lá de dentro, nos fazia parar; mas por pouco tempo. Borboletas passavam, fazendo acrobacias para melhor exibirem as suas asas coloridas. Era um convite para acompanhá-las. E corríamos ao lado delas, pra lá e pra cá, de um lado para o outro, da porta da sala para a porta da cozinha. Correr! Hoje entendo. Aqueles anos eram o início; a largada para a corrida do tempo.

Miguel Patrício é escritor; professor e radialista.
Contato: miguelpaodemel@gmail.com


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