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A HISTÓRIA DE UM DOCE

Era um doce. Nem se imaginava, mas era um doce. Enrolado num papel luminoso de beiradas recortadas, lá estava, em miniatura, um doce com rosto de criança que, de tão capricho, parecia ter vida. Bem desenhado, tinha bochechas rosadas, olhos de uma pedrinha brilhante, cabelos cobrindo os ombros, e um sorriso doce, bem doce...

Foi um presente. Mais uma das inúmeras lembranças que os amigos encontram para demonstrar seu carinho. Recebi de bom grado. É bom ser lembrado, mesmo que, no íntimo, a gente sempre carregue a incômoda sensação de um dia ter que retribuir.

Pensei em guardar. E no caminho para casa, aquela pequena figura, que se escondia em minha mão esquerda, parecia feliz olhando em meus olhos. Parei na calçada. Olhei-a fixamente, observando cada detalhe. Como era linda! Poderia mesmo guardá-la.

Mas guardar algo doce... ia se perder. E as formigas, que fazem da minha casa local de seminários, simpósios e demais encontros rotineiros para tratarem de assuntos culinários? Não era possível. Além disso, o almoço estava próximo e um pedaço de doce, àquela hora, não ia nada mal. Uma pequena sensação de mau hálito, depois de uma manhã de trabalho e muita conversa, também começava a aparecer. O doce resolveria ainda mais esse problema. E se eu encontrasse alguém especial no caminho e tivesse que trocar os três costumeiros beijinhos?

As tentações e os motivos eram muitos e não resisti. Levei à boca aquela coisa linda e, como se não quisesse machucar, mordi com ternura uma de suas pequenas orelhas e parte da face rosada. Foi horrível! O doce sabor pareceu amargo diante da expressão de tristeza que se abateu naquele rosto, agora desfigurado e com sinais de dentes. Não pude engolir. Senti-me o pior dos humanos. Como podia estar fazendo aquilo? Aqueles olhos pequeninos me acusavam, impiedosamente, por estar acabando com sua vida. Dei mais alguns passos, cuspi o pedaço da boca e joguei a parte que restou no bueiro.

Até agora me lembro daqueles olhos tristes chorando em minhas mãos.

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