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CERÂMICA DO ZÉ PEREIRA

A moça era bonita, a mais bonita por aqueles lados. Morena, olhos grandes, cabelos negros cobrindo a cintura, um sorriso largo que conquistava à distância. Não precisa dizer mais nada. Sua fama saiu pelo quintal, ultrapassou os poucos alqueires da fazenda de seu pai, circundou os vizinhos do norte, do sul e alcançou o povoado a algumas léguas depois das serras que rodeavam aquele pedaço de sertão.

Assim, os rapazes da região viviam “ouriçados” pela donzela. Moça direita, própria para casamento e muito bela. Na verdade era mesmo a beleza que os assanhava. Como a família ia pouco à pequena cidade e às vezes nas festas religiosas da região, raras eram as oportunidades que os referidos rapazes tinham para admirar aquele jeito elegante de ser, aquele corpo esbelto escondido num vestido de rendas, cobrindo os joelhos. O jeito era se aventurar em um passeio qualquer cujo trajeto passava obrigatoriamente nas terras daquela morena. De charrete, a cavalo e até mesmo de bicicleta os cortejadores chegavam aos borbotões. O velho colchete se abria, o cachorro alertava e logo surgia alguém na porta da casa para receber o visitante. Muitas vezes a própria moça. A desculpa costumeiramente utilizada era pedir um copo de água para se refrescar um momento e seguir a viagem. O tempo era pouco, mas o bastante para se certificar da pura meiguice, da real beleza que tinha a famosa cabocla.

Neste momento, entra na história um novo personagem. Um jovem rapaz amigo nosso. Alegre, falante, conquistador e habitante do povoado. Tinha apelido de Doutor, não se sabe por que, pois de médico nada tinha. Era aventureiro, e ao ouvir falar da moçoila resolveu ver de perto toda aquela formosura. Antes de sair, no entanto, foi alertado que o dono da fazenda estava injuriado com aquelas visitas sem motivos palpáveis e se irritava principalmente com a velha desculpa do copo de água, já que para chegar à propriedade todos tinham que atravessar um pequeno riacho de águas frias e cristalinas que nascia na serra.

Doutor montou seu cavalo e partiu. Na desculpa deixou para pensar depois. Cavalgou por um bom tempo, contornou a elevação e quando a estrada fez uma curva e saiu do matagal, repentinamente se viu diante do pequeno colchete. Seu coração deu um salto dentro do peito; um pouco por estar prestes a ver a morena, mais ainda por não ter a desculpa pronta que justificasse sua presença ali. Pedir água, nem pensar! O cachorro latiu, o cavalo se encostou e a porta se abriu. Apavorado, ainda preso às rédeas do animal, perguntou: “Aqui é a Cerâmica do Zé Pereira?” Foi a pior de todas, a mais esfarrapada desculpa que as pessoas daquela casa ouviram. Como pode a sua morada tão simples ser confundida com uma cerâmica, de enormes paredes e altas chaminés soltando fumaça pelos ares? Como pode?

O desconcertado Doutor deu meia volta. Foi motivo de chacota por muito tempo nas rodas de amigos. Até hoje, após tantos anos, alguém se lembra do fatídico episódio. O que não sei dizer é se a tal Cerâmica do Zé Pereira foi uma invenção de sua mente afobada ou se realmente existiu por aquela região.

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