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Espaço Cultural -

Chicungunha, Zica e Outros Bichos

Ontem à noite eu sonhei que caminhava tranquilamente por uma estrada muito bonita. Suas margens eram cobertas por flores silvestres, e pássaros cantavam alegremente nas copas das árvores. O agradável cheiro do mato abandonava as largas sombras, brincando em minha volta. E, vem em quando, o vento trazia o murmúrio das águas de um ribeiro próximo. Tudo maravilhoso, tudo perfeito, ou quase...

De repente, numa curva do caminho, apareceu uma chicungunha daquelas bem grandes e se apressou para me alcançar. É claro, não esperei. Lancei-me numa corrida desenfreada, pois sei de tudo o que aquela coisa faz com as pessoas. São dores de cabeça, nos músculos, além de febre alta e manchas vermelhas na pele. Vez em quando, olhava para trás e via seus olhos vermelhos voltados em minha direção. Se ela me alcançasse, eu pegaria um mal-estar terrível e inflamaria todas as juntas do corpo, principalmente dos pés e das mãos. Não, não poderia acontecer e acelerei a minha fuga. O fôlego já estava no fim quando consegui despistar a danada.

Então, parei para descansar um instante, mas não tive sossego. Do meio de um capinzal, uma zica apareceu como por encanto. Deixei escapar um grito de terror quando me vi frente a frente com aquela abominável criatura. Ela abriu um sorriso por entre a cabeleira que caía em seu rosto e estendeu as mãos para me pegar. Dei um salto providencial e corri de volta pelo mesmo caminho com a fulana bufando em meu cangote. Deus me livre! Seria pior para mim. Mais febre, mais cansaço, vermelhidão nos olhos e coceira pelo corpo, sem contar a microcefalia. O couro das minhas costas se juntava de medo só de pensar que ela podia me tocar. Rezava e corria, corria e rezava, fugindo daquilo que parecia gripe, mas não era.

No momento em que consegui uma pequena dianteira do ataque da zica, foi que me lembrei de que corria de encontro aos braços da chicungunha. E comecei a ouvir o rugido das duas feras ao mesmo tempo; uma quase me alcançando e a outra chegando ali depois da curva. Não teve jeito, num segundo me vi cercado e perdido. Berrei feito um porco quando leva uma facada debaixo do sovaco e acordei todo suado. Liguei a luz do quarto e me sentei na cama. O corpo estava doendo, a boca seca, sentia febre e uma imensa dor de cabeça e no fundo dos olhos. Corri para o vaso sentindo vômitos com a certeza de que havia pegado dengue. Não era mais sonho e segui cambaleante para o SUS.

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