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Espaço Cultural -

Esquecimento

Miguel Patrício

Acho que estou ficando velho. Ando me esquecendo de tudo. Esqueço dos dias, dos compromissos, das pessoas... Quando saio de casa, tenho sempre que voltar para conferir se realmente fechei a porta.

Dizem que é normal com a passagem das primaveras. Não sei. Já pensei ir ao médico em busca de uma vitamina qualquer, mas me esqueci.

Certa vez fui ao banco e, na volta, caminhei pelas ruas olhando as vitrinas, cumprimentando as pessoas que passavam, admirando as belezas de minha cidade. Ao chegar em casa, notei que o meu carro não estava na garagem. Será que roubaram? Estava emprestado ou na oficina mecânica? Nada disso. Eu o havia esquecido na porta do banco.

A coisa é séria. Por alguns segundos – até “cair a ficha” – já esqueci meu sobrenome, o ano em que estamos, a roupa que vesti no dia anterior, as atividades que fiz de manhã... Mas o esquecimento que mais me aflige é não saber o nome das pessoas. Imagine o amigo me abordar na rua, estender a sua mão, bater um longo papo comigo, e eu ali, quase maluco, num esforço sobre-humano, tentando lembrar seu nome e não consigo. A conversa termina, a pessoa vai embora e eu fico remoendo, espremendo a memória o resto do dia em busca da fatídica alcunha. Deveria haver uma lei obrigando todas as pessoas a andarem de crachá, com o nome bem explícito no peito em letras maiúsculas. Facilitaria, e muito, para mim.

Numa tentativa de amenizar o problema, comecei a utilizar um bloco de papel, colocado estrategicamente sobre a penteadeira, onde agendo os meus afazeres mais importantes para não serem esquecidos. O problema é me lembrar de olhar as anotações.

O meu consolo é saber que não sou o único esquecido nesta cidade. Tenho certeza de que muitos se identificaram com o fato. Bem, era só isso... eu queria dizer mais uma coisa, mas acho que me esqueci...

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