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Espaço Cultural -

O LENÇOL

Começou há pouco tempo. Poucos dias, semanas talvez. Algo difícil de imaginar, estranho demais para acreditar. Mas está acontecendo! Na beira da cama, do lado dos pés, no canto direito, sempre no mesmo lugar. Está lá, para quem quiser ver. Está lá, mas nem me atrevo a mostrar. Duas a três vezes por dia, em espaços regulares de tempo, o lençol antes estendido, e bem estendido, pois sou cuidadoso, aparece amarrotado, meio amassado, como se alguém ou alguma coisa tivesse sentado e depois saído, deixando sua marca.

Eu moro sozinho. Só eu tenho a chave do quarto. Não, não é impressão a impressão no lençol. Não há dúvidas! Garanto que não estou maluco e que estendo bem o tecido, principalmente agora que comecei a observar o caso. Vou lá, pego nas duas pontas, ergo, balanço e deixo cair levemente; depois passo as mãos abertas, como se fizesse um carinho, alisando, analisando. Horas depois – não há um tempo definido – quando volto ao quarto, lá está: o mesmo amasso, no mesmo lugar. Já me condicionei. É o primeiro ponto que olho ao entrar. Vou lá, puxo o lençol, passo de novo as mãos, conserto e saio, com a certeza de encontrá-lo, outra vez, pouco depois, amarrotado. Parece até que o colchão cedeu um pouco daquele lado.

Algo está sentando ali! Não é uma afirmação tranquila de dizer. Mas só me resta acreditar. Não estou mais sozinho em minha casa. Agora o que fazer com meus princípios, minha descrença? Até hoje só acreditei em algo depois de vê-lo. O sobrenatural sempre foi para mim algo sobre o natural, que eu não vejo, não alcanço, não toco e, portanto, não dou importância. Talvez seja exatamente esse o problema: o inexistente quer provar que existe para que eu creia em sua inexistência. Ou seja, que eu seja como a maioria das pessoas, que veem na incerteza o mais certo para sua vida.

Mudar de casa não é a solução; tampouco mudar o colchão. Já sentei de lado e puxei conversa. Mas “ele” é mudo, ou surdo, quem sabe. Não sabe a minha língua ou não sei a dele. Às vezes a sua indiferença me irrita e eu grito, mas não adianta. Ele é impassível. Parece que quer apenas o seu lugar, descansar. Tudo bem. A cama e o colchão são meus. Comprei e paguei, mas se ele quer um pedaço, não me importo, nunca fui egoísta. Pode ficar, descanse à vontade. Ah, mas não se esqueça de consertar o lençol. Eu faço isso, por que não pode fazê-lo também? Não se esqueça de que sou um dono de casa organizado. Boa-noite.

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