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Espaço Cultural -

PENAS

Foi assim que aconteceu. Alguém alcançou o alto do coqueiro, espantou pai e mãe e, no rebuliço dos filhotes, escolheu um para si. Bico e pernas se debateram em vão e a pequena e indefesa ave, um periquito pelado – em alguns dias esverdeado com listras vermelhas nas asas – se viu diante de sua nova moradia: uma gaiola de madeira, com teto, piso e paredes iguais, pendurada por um velho arame na área da casa grande. Diferente do seu ninho; diferente do seu fofo ninho; bem diferente do seu fofo e quente ninho.

Foi assim que aconteceu. E os moradores não compreenderam por que o filhote, desde sua chegada, dia após dia, emitiu um som estridente sempre igual em intervalos regularmente cronometrados. Seria fome? Seria sede? Seria frio? Ou, quem sabe, seria... saudade? Até que, uma semana depois, um pássaro, num voo ligeiro, assentou-se sobre a gaiola, balançando-a com o carinho que se balança um berço. Não houve dúvida. Quem viu não deixou de notar o olhar de ternura, a voz de consolo da mãe naquele mágico momento de reencontro. O prisioneiro se agitou, rondou a gaiola, bicou barra por barra que o prendia, alimentado pela força daquela verde esperança. E o pai? Chegou logo após e se instalou num galho próximo da mangueira como se vigiasse o... resgate.

Longos minutos se passaram. A mãe ali ficou, olhando para baixo o filhote que olhava para cima. Seu olhar era alimento, era ternura que enfeitava as grades, era calor do ninho perdido. Sua calma dizia tudo, só não deixava transparecer que a prisão era bem maior do lado de fora. Sua calma esperava por algo que não conhecia, mas que seu coração materno afirmava existir; esperava por um milagre que, naquele dia, não aconteceu. Um movimento próximo e as aves lançaram-se no azul do céu, deixando para trás um colorido de adeus e um filhote enlameado num mingau de desespero.

Nada mais soube do caso, a não ser que, depois desse dia, os estridentes chamados se tornaram roucos e se amiudaram. Talvez o filhote tenha percebido que a prisão seria a sua eterna morada. Pena para quem nem tinha penas... Nada mais soube do caso, mas sempre que me lembro dele dói em mim o coração. Vez em quando fecho os olhos e penso num final feliz para aquelas criaturas. Penso vê-las voando, as três, fazendo rodopios e algazarras, espalhando pedaços de felicidade sobre as folhas dos coqueiros. Penso vê-las seguindo, cada vez menores, rumo ao horizonte, bicando plumas de nuvens coloridas pelo pôr-do-sol. Eu penso, e me dói o coração.

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