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Espaço Cultural -

SANSÃO

Sansão é o nome dele. Vive rodeando uma lanchonete próxima ao centro da cidade em busca das migalhas de comida que caem ao chão. Ele sabe a hora mais apropriada, quando os lanches estão mais cheirosos e um número maior de pessoas se reúne. Nesse momento ele aparece e inicia sua peregrinação em volta das mesas. Não morde, não late, é um cão dócil. Mesmo a rua sendo o seu lar, não aprendeu os maus exemplos dos colegas, não se deixou corromper pelas coisas feias que vê à sua volta. Quando jovem teve um acidente ao atravessar a avenida. Foi pego de surpresa por um automóvel apressado que praticamente inutilizou-lhe as duas pernas traseiras, e agora ele se arrasta ao se locomover. Na verdade, uma delas ainda consegue se firmar, facilitando um pouco a sua “caminhada” em busca da alimentação de cada dia. Não cortaram seu pelo, mas nesse dia Sansão perdeu quase toda sua força.

Na lanchonete, seu lugar preferido, naturalmente tem um problema: a dona do local, que se esmera na higiene e no bom atendimento, vive em seu encalço, afastando-o dos fregueses. Ele compreende a zanga e lentamente se retira, retornando minutos depois quando a mulher já se ocupou de outra tarefa. Sansão sempre volta, pois ele tem fome e é ali que diariamente encontra um resto de comida, uma fatia de lanche que, por descuido, cai ao chão. E, vez em quando, um suculento pedaço de carne lhe é atirado por alguém que se condói de seu estado, da tristeza que emana de seus olhos. Aliás, esses seus olhos pedintes, esse andar trôpego é que na verdade o mantêm por ali. A dona da lanchonete espanta com veemência os outros cães que aparecem e tem com ele, o Sansão, um pouco de condescendência. Não bate, não grita, afasta-o como se levasse para longe um pedaço de si, de sua bondade, do dó que sente por ele. Ela sempre acha um meio termo onde o cachorro consegue comer alguma coisa e não incomoda tanto os frequentadores do local.

Eu pedi um lanche e esperava. Outros fregueses se aproximaram e, enquanto éramos atendidos por um ajudante, a mulher de bom coração chamou pelo cachorro – e foi aí que aprendi seu nome – que a acompanhou vendo um pratinho em suas mãos. Era uma das técnicas usadas por ela para afastar o animal. Claro que sua fome difícil de saciar o traria de volta logo depois, mas por um breve momento o lugar se livraria daquela presença quase incômoda. Fico pensando que a proprietária, quando adquiriu o negócio, nunca iria imaginar que teria um problema assim dessa natureza, um caso sem solução, mais complicado que todos os outros, que as contas a pagar, que a concorrência. Assim é a vida, sempre com seus segredos e suas surpresas. Assim é a vida de Sansão.

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