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SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO É DIA DE FANTASMA

O rancho era próximo à casa grande daquela extensa fazenda onde se criava gado e se plantavam incontáveis alqueires de soja e milho. Depois do trabalho, Messias, um dos peões, acompanhava sua esposa à sede, já que ela tinha que buscar as roupas que lavava para os patrões. Luíza, a mulher, preferia fazer o serviço no pequeno rancho, pois assim podia cuidar das crianças, principalmente do moleque de colo que carregava. Tudo certo até aí, se o dia não fosse Sexta-Feira da Paixão...

A prosa era boa e o peão, sempre alegre e divertido, resolveu permanecer no local por mais algum tempo junto aos seus companheiros, mesmo estando prestes a escurecer. Luíza tentou argumentar, já que teria de levar, sozinha, o menino e a trouxa de roupas. O motivo maior, no entanto, era outro: todos sabiam que na Sexta-Feira Santa não é bom andar por aí à noite. Tudo pode acontecer, inclusive topar com algum fantasma. A conversa foi em vão. Numa gargalhada, Messias ainda zombou dizendo que, se encontrasse um espírito mau pelo caminho, faria o bicho correr até ultrapassar os limites da fazenda.

Assim, a mulher colocou num dos braços a criança e, sobre a cabeça, a pesada trouxa e desapareceu pelo atalho que unia as duas moradias. Enquanto isso, jogando conversa fora, o vaqueiro nem notou o sol se pôr e a escuridão tomar conta do local, o profundo e arrepiante negrume da Sexta-Feira da Paixão! Quando resolveu ir embora, ainda foi alertado pelos amigos a respeito das assombrações. O tom era de brincadeira, mas no momento em que adentrou o matagal após o mangueiro, a coisa mudou de figura. Parecia que a noite estava diferente, muito quieta e silenciosa. As aves e os animais noturnos haviam desaparecido. Nem mesmo os grilos cantavam. Um vento calmo e frio soprava do lado do varjão. Não saía de sua cabeça a conversa da mulher e a zombaria dos amigos. Então ele apressou o passo tentando chegar logo ao destino.

Quando chegou a alguns metros da pinguela que cruzava o córrego, o inevitável aconteceu. Uma aterrorizante figura surgiu como por encanto na encosta do mato que curvava sobre a estreita trilha. Assustado, ele parou para observar melhor aquele assombro. A ainda fraca claridade da lua cheia que surgia sobre os montes, mostrou o espectro se mover e se lançar em sua direção. A voz da mulher e as risadas dos amigos se espalharam pelo matagal e o pânico se intensificou. Numa desabalada carreira, o espavorido sujeito deu meia-volta, saiu da estrada e adentrou o varjão à esquerda do caminho. Não olhou para trás, mas tinha certeza de que a hedionda criatura das trevas corria em seu encalço. Foi roçando no peito o mato, o espesso capim, as folhas de são-josé, atravessou o córrego e subiu a encosta até alcançar o terreiro de sua morada. Fatigado, cambaleante e todo sujo de barro bateu aflito na porta logo recebido pela esposa. As quatro paredes e a luz da lamparina mantiveram o fantasma do lado de fora.

Dia seguinte, e o sol espantou o medo. Messias retornou à sede pela trilha costumeira. Quando chegou ao córrego, avistou um lençol branco dependurado numa pequena árvore. O vento o sacudia fazendo que ele se deslocasse no ar, movimentando-se de um lado para o outro. O peão entendeu o caso: o tecido, mal acomodado na trouxa de roupas que a esposa levava, havia se prendido num dos galhos da beira da estrada e fez o papel de fantasma. Sua mente, já impressionada, contribuiu para o fatídico episódio. Mesmo assim, Messias nunca mais saiu à noite por aquelas bandas na Sexta-Feira da Paixão.

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