Goiás Interior - A notícia como ela é !
×
Espaço Cultural -

SOM E IMAGEM

Que horror! Foi a exclamação da menina ao receber a notícia. O mais velho, já sabedor da tragédia, havia se amuado no canto com um bico deste tamanho. A mulher, por sua vez, perdeu o semblante alegre e os passos largos que rondavam a cozinha na execução das tarefas. O homem disfarçou, fez um comentário, dissimulou e sentou-se no lugar de costume como se estivesse à espera de um milagre ou coisa parecida. Era em vão, porém. A TV havia perdido o jeito, fora levada ao conserto e a novela estava prestes a começar.

Sabiam todos que naquele dia, se não houvesse mais uma enrolação, iriam revelar o autor do crime e que na última parte – o melhor fica sempre para o final – o rapaz humilde iria beijar a moça da alta sociedade. E quem se atreveria a perder uma cena dessas? Aliás, o enredo estava tão bom, tão envolvente que as reuniões da igreja só eram frequentadas aos finais de semana, a visita aos parentes nem era cogitada e a conversa para resolver os problemas da escola, sempre adiada. Aquele era o momento, mas ali estavam todos arriados, sem ânimo, sem ação. O som e a imagem haviam sumido daquela casa.

À luz da razão, é fácil ver que esse não é um problema tão sério assim. Mais ainda, as novelas é que são o problema e deveriam ser afastadas das pessoas. Não é aceitável, para o mais insignificante ser, sentar-se numa poltrona, voltar-se para a tela com um controle nas mãos e deixar o tempo passar. A sua vida, que tem os minutos contados, preciosa existência, sendo deixada de lado, trocada pela vida dos outros. A alegria, a tristeza, a emoção não são verdadeiramente dele, mas dos personagens; o final feliz não é para si. No entanto, é assim: vai uma novela, vem outra, e a vida vai. Isso não é distração, é um moderno tipo de prisão.

No entanto, pouca gente consegue enxergar essa evidência, e o clima naquela casa estava pior a cada minuto. Olhares, suspiros, monólogos. Corações aflitos batiam em coro, ferindo o silêncio. Sabe quando morre alguém da família e as pessoas sentam-se juntas, voltadas para si mesmas após o sepultamento? Não, não é exagero, o desconsolo estava desse jeito. Enfim, o remédio para aquela doença: vamos ao vizinho assistir à novela. E assim foram felizes o resto da noite e para sempre.

Edições Anteriores
Acesse as edições anteriores do Goiás Interior