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Tempo de Honestidade

Muitos dizem por aí, parafraseando Rui Barbosa, que chegaria o tempo em que o homem sentiria vergonha de ser honesto. Parece que esse tempo chegou. Quase todos os setores de nossa sociedade estão corrompidos, sempre há alguém negociando favores, desleais acordos se multiplicam e discussões sobre os destinos da humanidade são concluídas com a maior ou menor porcentagem que se pode ganhar. Inúmeros cidadãos deixam-se levar pela corrente, pois seu anseio não alcança o objetivo sozinho, inevitavelmente se vê ligado a esse ambiente corrompido. Resta a alternativa de fazer parte do jogo.

Há exceções, sem dúvida, mas aqueles que ainda não se entregaram se mostram cansados de remar contra a maré. No ambiente de trabalho, vários grupos se formam, buscando os próprios interesses, pisando espaços e direitos dos outros. No esporte, os dirigentes realizam jogadas perfeitas que no final do certame levam à vitória somente aqueles que fazem parte do time. Na religião, vários seguidores perderam a fé nos falsos sacerdotes que a proclamam. Na vida pública, a corrupção é quem comanda; os noticiários só falam dela, e a cada dia se descobre um jeito novo de alguém levar vantagem.

Não faz muito tempo, poucos anos apenas, a honestidade vivia estampada nos olhares das pessoas. Os bons realmente eram maioria. Em minha infância, eu me lembro, a palavra valia mais que papel assinado, os compromissos eram cumpridos, os acordos respeitados, até os horários eram mais exatos. Reinaldo Gouveia Franco, nosso eterno escritor, fez alusão a essa honradez em um de seus contos, narrando o martírio de um fazendeiro que entregou seu rancho a um comprador, mesmo depois de ter se arrependido; porém havia dado sua palavra, a venda já havia sido consumada num aperto de mão. Eu me lembro. Havia os mercados, os botecos, os açougues. Todos vendiam a prazo e recebiam no final do mês. Aconteciam atrasos, mas por motivos justos. A confiança era tamanha que, numa certa mercearia, o dono anotava as compras em pequenos cadernos e os entregava aos clientes. Isso mesmo. A pessoa chegava ao balcão, fazia seu pedido, o vendedor anotava e a caderneta era levada para casa. Nenhuma sumia, nenhuma folha era arrancada. Não, não era ingenuidade, mas sim a certeza de que a honestidade era maior, mais importante que qualquer deslize. Tudo isso fazia parte do sermão que meu pai repetia por incansáveis oportunidades aos filhos. Foi o legado que deixou a todos nós, um valioso legado.

Essas lembranças vez em quando vêm me fazer uma visita. Elas chegam de mansinho dourando o meu caráter, reforçando a minha personalidade formada nesse tempo, nesse mágico tempo de honestidade que não volta mais.

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