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Uma garrafa vazia jogada na grama

Ontem à noite, ao vagar pela cidade, notei, entre o movimento frenético das luzes dos automóveis e a pressa incompreendida das pessoas que passam, a quietude de uma garrafa vazia jogada na grama no canto da praça. O rótulo exibia a marca de um wiskey conhecido. Voltei os olhos várias vezes, enquanto caminhava, na direção daquela cena abandonada, despercebida pela maioria dos transeuntes. Uma cena, porém, de grande importância...

Não é difícil imaginar o “dossiê” dos consumidores. Sim, no plural, pois a ingestão de bebida alcoólica pressupõe a presença do outro ou de outros para a alegria, a conversa, o desabafo. Sem muito esforço dá para visualizar seus rostos sorridentes, as vozes elevadas, os acenos exagerados chamando para si a atenção. É fácil reconhecer nesses jovens a escolha pela vida fácil, sem compromissos, sem grandes objetivos, sem divindade. É nítido, em suas ações, o pensamento dos filósofos gregos hedonistas que consiste na busca da felicidade através do prazer: bens de consumo, experiências sexuais, festividades, comidas e bebidas fartas.

Quem traz consigo um pouco só de serenidade contesta esse estilo de vida. De início já se reprova a atitude da garrafa jogada em lugar público, desrespeitando o meio ambiente. Mas será que eles estão errados totalmente? Desde os primórdios da humanidade, a felicidade é buscada de várias maneiras e ninguém ainda descobriu o caminho ideal. Talvez esses momentos, esses arroubos da juventude sejam componentes necessários para uma existência realmente feliz. Muitos, contrários à ideia, vivem prolificamente toda uma vida e só descobrem seu descaminho quando a morte se aproxima. Assim narrou o maior escritor argentino Jorge Luis Borges em um de seus textos. São pensamentos que se cruzam, se debatem há mais de mil anos antes de Cristo.

E uma garrafa vazia jogada sobre a grama faz reviver o embate. Se não para muitas pessoas, pelo menos dentro de mim. Fazer sempre o que é considerado correto e conter os desejos ou se deixar levar pelas emoções contrariando regras ditadas pela sensatez? Ou há, ainda, um terceiro caminho a seguir? É preciso refletir e divagar por mais alguns milhares de anos. Dizem que o segredo da sonhada felicidade está dentro de cada pessoa, mas quem sabe esteja dentro desta garrafa. Basta esfregar e esperar que a ventura se espalhe no ar junto à fumaça. Seria bem mais fácil para todos nós.

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